O brincar e a educação

2017-07-24 12.20.00

Nós hoje temos um problema: um menino que vai fazer 3 anos e que eu gostaria de colocar em um tipo específico de escola que é difícil de achar. As mais ou menos como eu gostaria são longe pra dedéu. E caras. Perto de casa não tem nenhuma, talvez apenas as públicas – UMEIs, Unidades Municipais de Educação Infantil, onde se entra por sorteio. Conhecendo a minha sorte, melhor nem sonhar. Então estamos aí, na busca, ponderando distâncias, valores, princípios.

E que escola é essa, afinal?

Eu queria uma escola que não estivesse preocupada em alfabetizar uma criança de 3 anos. Cujas metas para o Maternal III não incluíssem aprender a escrever o próprio nome. Que reduzisse ao mínimo o período em que as crianças precisam ficar sentadas dentro de sala, e em troca as levasse para fora. Eu pagaria por uma escola em que meu filho pudesse passar o dia no recreio.

Estudos e mais estudos vêm demonstrando que não há nada mais importante para uma criança de até 6 anos do que brincar. Maria Montessori já dizia, com muita propriedade, que brincar é o trabalho da criança. Magda Gerber dizia que, ao tentar ensinar uma criança, podemos atrapalhar o que ela está aprendendo.

Queria uma escola que não me mandasse trabalhinho. Ou que os trabalhinhos até viessem, mas fossem grandes borrões de tinta, rabiscos, exatamente como meu filho faz quando recebe papel, tinta e liberdade. Uma escola em que o aprendizado se desse de forma orgânica: não números em cartolina, mas 1, 2, 3 formiguinhas em fila. Não “este é o amarelo”, “este é o triângulo”, mas a folha está aqui, de que cor é a folha, a folha é verde, o que mais é verde, vou colocar a folha verde neste círculo de madeira.

E também onde se lessem muitos livros. Onde as crianças pudessem escolher as histórias, pegar os livros, pedir. E esse livros fossem bem escolhidos, com ilustrações bonitas, literatura de boa qualidade.

Queria uma escola de onde meu filho voltasse sujo e feliz, contando das coisas incríveis que viu e fez. Até porque o propósito dessa escola, para mim, é despertar o desejo de aprender o mundo lá fora, e pra isso é preciso ir ao encontro dele. Brincar o mundo.

Seguimos buscando a combinação que funcione. Talvez a mais longe. Talvez a mais cara. Talvez.

 

A day in the life

Presuma-se que:
1) Neném acorda a cada 3h durante a noite.
2) Antes de cada mamada tem uma troca de fralda.
3) Quando marido não está fazendo alguma coisa da casa, está trabalhando no computador.

7h: Neném acorda pra mamar.
7h30: Eu levanto, vou tomar café e dar uma ajeitada na casa porque a faxineira chega às 8h.
8h30: A faxineira não chegou, vou me aprontar e aprontar o menino pra sair.
9h: Amamento de novo pra poder sair em paz, faxineira manda mensagem dizendo que passou mal e não vem.
9h30: Vou ajeitar a mochila do parquinho
9h40: Saímos eu e menino pro parquinho, neném fica com marido
11h: Voltamos do parquinho, olho a geladeira, não tem o que fazer de almoço (supermercado tá atrasado), decidimos pedir delivery. Vou juntar o lixo, porque hoje tem caminhão de lixo.
11h30: Amamento de novo
12h10: Mal acabei de amamentar, chega a comida, desço pra buscar. Assim que volto, sentamos pra almoçar.
12h40: Acabamos de almoçar, vou aprontar o menino pra escola enquanto marido prepara a merendeira.
12h50: Saio de casa de carro pra deixar o menino na escola e passar no supermercado. Menino enrola pra entrar no carro, gastamos preciosos minutos.
13h05: Volto pro carro depois de deixar menino na escola. Rumo ao supermercado.
14h15: Saio do supermercado com a compra feita. Trânsito tá péssimo.
14h30: Chego em casa correndo, amamento em quinze minutos, pego o cachorro e levo pro carro. Ela está com um inchaço na pata, tem consulta às 15h.
14h50: Saímos de casa.
15h10: Chegamos à veterinária. Ela está um pouco atrasada, esperamos, entramos na consulta. O inchaço estoura durante a consulta e drena líquido. Vamos precisar de antibiótico, material vai pra cultura, tem que refazer o exame de fezes pra ver se não tem mais verme.
16h15: Saímos da veterinária.
16h35: Chegamos de volta em casa.
16h40: Amamento a neném, engulo alguma coisa, faço um chá.
17h20: Saio de casa a pé pra buscar o menino na escola.
17h45: Voltando da escola, menino toma um tombo correndo na descida, cai de boca no chão. Acho que não bateu os dentes.
18h: Chegamos em casa. Passo um pano úmido na cozinha, que tá imunda.
18h15: Tomo banho. Ontem não deu tempo.
18h35: Saio do banho. A fralda da neném vazou, troco a roupa dela, ponho a suja de molho. Amamento. Ainda estou amamentando, às 19h20. Vou acabar, lanchar rápido. Colocar menino no banho. Vestir o pijama, escovar os dentes. Marido vai chegar pra contar história e colocar na cama. Eu vou colocar uma máquina de roupa pra bater. E vai ser a primeira vez no dia que vou sentar e respirar, até dar a hora da neném mamar de novo.

Tudo isso para insistir naquele ponto: não dá para apontar dedo pra quem está tentando equilibrar família e trabalho, procurando meios de simplificar, terceirizando o que não é convívio direto, ou simplesmente largando mão de algumas coisas. A conta não fecha.

Um pote até aqui de m*

Existe a gota d’água. E existe o pote de merda. Uma é pequena, delicada, e metaforicamente faz transbordar o copo. O outro é fedido, e literalmente se espalha cozinha afora. Transborda tudo.

O cachorro está com diarréia intermitente. Morgana é idosa, o exame de fezes simples não deu nada, a veterinária pediu um MIF: três dias coletando cocô num potinho com líquido conservante. O cocô fede, o conservante fede, cada vez que o pote se abre dá vontade de vomitar.

Hoje era o último dia da coleta.

Ontem à noite Teresa chorou ininterruptamente das 20 às 23h, mesmo no colo, mesmo mamando. Não dormia. Foi dormir pra lá de meia-noite, depois de sugar até a alma.
Vinícius acordou 4h30 da madrugada. Chamou pelo pai, o pai foi, o menino não dormiu. Por volta das 5h15 assumi o posto, depois que Teresa acabou de mamar (pela segunda vez depois que dormiu. Ou terceira). Marido foi pro computador trabalhar. O menino não dormiu. Às 6h, olhou pela janela, viu que tinha sol, e decretou que era hora de levantar.

Pensei: vou tentar manter o bom humor. Vou tentar viver o momento.

Levantei, tomei um copo de coca no lugar do café, fiz uns ovos mexidos, preparei o cereal com leite do Vinícius, sentei na mesa com ele pra comer, deixei ver um pouco de desenho enquanto fui amamentar Teresa (de novo!), pedi pro pai trocar a roupa dele enquanto eu me aprontava, levei pro parquinho, voltei. O dia melhorou.

O cachorro tinha feito cocô, pensei: opa, vou coletar e acabar o serviço. Coletei, e aproveitei pra lavar a área e passar desinfetante. Deixei o potinho em cima do balcão, entre a área e a cozinha, pra não esquecer. Sucesso.

Fui ver se Vinícius tinha dormido, mas ele estava vendo desenho de novo. Desliguei o desenho, ele deu um chilique, falei que não era mais hora de desenho, coloquei música e disse que ele precisava descansar. Ele pediu colo. Fiquei sentada com ele no colo, ele inventando desculpa pra não dormir. Ouvi Teresa ameaçando acordar, coloquei ele deitado no sofá, fui ver.

Ainda estava só resmungando. Fui aproveitar pra comer e beber antes que ela acordasse. Cheguei na cozinha, peguei um pedaço de pão. Vi o pote de cocô, pensei: já vou guardar na caixinha e colocar num saco, pra levar. Peguei o pote. A tampa não estava presa direito.

A merda se espalhou pelo balcão, pelo chão. Cocô diluído em conservante fedido. Sujou minha roupa, braço, perna. Resisti à tentação de jogar na parede o que tinha sobrado no pote. Resisti à tentação de dar um berro. Fui até o marido, expliquei o ocorrido, pedi pra ele limpar enquanto eu ia tomar banho.

Vinícius já estava dormindo. Teresa não tinha acordado. Eu estava sem banho há dois dias. Um pote de merda. Respira. Lava. Chora. Logo quando eu achei que estava tudo bem. Começa outra vez. Metáfora.

Amor Líquido

Não, não é o do Bauman. É o do peito, mesmo.

 

Sempre quis amamentar. Quando estava grávida do Vinícius, minha alegria foi perceber, aí pelo sexto ou sétimo mês, que já tinha colostro. Ele nasceu, não pegou o peito imediatamente, mas ainda no primeiro dia conseguimos nos ajeitar, e ele mamou. Mamava bastante, mamadas longas, de 40-60 minutos. Às vezes “brigava” com o peito, ficava irritado, mas fui com paciência e encontrei um jeito de segurar a cabeça dele com a mão, evitando que perdesse a pega.

Durante a primeira consulta no pediatra, com quinze dias de nascido, ele precisou mamar. Quando o pediatra viu a forma como eu o segurava, disse que não estava legal, que eu precisava apoiar o braço de outra forma, que precisava encaixar a cabeça dele na dobra do braço, aquilo que normalmente nos ensinam – e que eu já sabia que não funcionava bem. Escutei, me preocupei. Aí chegou a hora da pesagem… E ele tinha ganhado quase 1kg. Em quinze dias.

O pediatra olhou pra balança, olhou pra mim, e disse:

“Sabe aquilo tudo que eu falei sobre técnica de amamentação? Esquece. O que você faz está funcionando.”

Foi nessa fala do pediatra que entendi uma coisa importante. A relação de amamentação não é automática, é aprendida. De um lado desse aprendizado está a técnica: enfermeiras e consultoras podem ajudar muito, e as técnicas podem fazer toda a diferença para melhorar a pega do bebê, reduzir as dores, estimular a produção. Mas existe também algo que é instintivo da mãe, que observa o bebê e se adapta a ele – e o excesso de técnica pode acabar com a espontaneidade dessa adaptação. Se o pediatra tivesse insistido na técnica, provavelmente teria comprometido a minha segurança na amamentação e a confiança naquilo que só eu poderia oferecer ao Vinícius – meu olhar de mãe, minha capacidade de buscar o mais adequado para ele.

Com Teresa, tudo já foi bem mais simples. Ela mamou logo na primeira hora, subimos para o quarto com ela pendurada no meu peito. A pega dela é eficiente, ela mama rápido e não engole muito ar. Vendo a diferença, entendo que a amamentação do Vinícius foi muito mais difícil do que me pareceu na época (achava tudo muito simples), e que as coisas só fluíram bem porque tive bastante apoio para fazer o que parecia melhor – nem dei ouvidos aos conselhos para reduzir o tempo de mamada, por exemplo.

O que às vezes escuto é que amamentar dá muito trabalho, e tenho vontade de rir. Não sei como alguém pode achar que fazer gestão de uma penca de equipamento (mamadeiras, bicos, escova de mamadeira, pote de leite em pó), estocar leite em pó, esterilizar mamadeira, e ainda ter que ir pra cozinha resolver mamada da madrugada possa ser menos trabalhoso que simplesmente puxar o peito pra fora e acoplar a criança.

Há inúmeros motivos para não amamentar, inclusive não querer. Mas a verdade é que é prático. Tem lá suas implicações para a mulher (outro dia falo disso, quando for contar do desmame), mas é a coisa mais cômoda não ter que preocupar em transportar, armazenar, esquecer – estando a mãe, está o que é necessário.

Sem contar que o leite materno, além de ser um alimento completo, tem outras vantagens. Quando Vinícius teve as viroses da infância, era um alívio saber que eu tinha um meio prático de ajudá-lo a superar aquilo: mesmo quando não tinha apetite pra mais nada, ele aceitava mamar, e ali eu sabia que ele estava recebendo hidratação, alimento e uma dose extra de anticorpos, e me sentia menos impotente diante da doença. Quando viajávamos de avião, mamar durante decolagem e aterrissagem evitava qualquer dor de ouvido.

A única coisa que para mim não funcionou: amamentar não me ajudou a emagrecer, mesmo tendo feito livre demanda e amamentação exclusiva até os seis meses. Pelo contrário, ganhei um pouco mais de peso. Depois descobri que não era exceção, porque embora aumente o gasto calórico, aumenta também a FOME (assim, em maiúsculas), o que acaba compensando, e o regime hormonal da amamentação não facilita a perda de peso – a prolactina altera o metabolismo da gordura. Quando comecei a pesquisar, entendi que para emagrecer amamentando é preciso fazer dieta, seja voluntariamente, seja porque não dá tempo de comer. Paciência.

Na primeira gravidez, surtei com as mudanças no corpo, em especial a barriga (ai, gente, a barriga), mas dessa vez já sei que o tempo de preocupar com isso vai chegar, e não é agora. Agora eu quero saber é de bebê esvaziando peito, ganhando peso, crescendo, olhando pra mim com aqueles olhos de bichinho, enquanto a gente cria vínculo pra longa jornada que vem pela frente. Vou dando a ela meu amor líquido, enquanto espero ela me dar um sorrisinho…

Teresa nasceu

Teresa

A gente tinha ali aqueles nomes possíveis. Dentro dos critérios meio doidos que inventamos, estava: se ela for brava, forte, vai ser Teresa. Guardamos essa ideia, e esperamos.

Mas ninguém esperava de verdade que ela viesse antes de 40 semanas. Todo o histórico pessoal e familiar, a gravidez anterior, e mesmo os sinais dessa gravidez – com 38 semanas o colo do útero ainda estava alto, fechado, sem sinal de dilatação – davam a impressão de que a espera seria longa.

Por isso, mesmo no finalzinho, fomos tocando a vida como quem ainda tem uma ou duas semanas pela frente. Fazendo bolão de data de nascimento começando em 40 semanas. Marcando compromisso pro domingo em que fizemos 39 semanas, e pra toda a semana de 39+1, +2, +3…

O fim de semana foi ótimo. Encontramos uma amiga que veio de Porto Alegre, e com ela, vários amigos de BH que ainda não tínhamos conseguido ver. Fomos à Praça da Liberdade, ao CCBB, ao Maletta. Almoçamos na casa da minha avó no domingo, levei Vinícius pra andar de bicicleta, terminamos o dia comendo empanadas no Pizza Sur. Eu estava me sentindo super bem disposta, alegre, empurrando o barrigão mundo afora.

Na madrugada de domingo pra segunda, Vinícius acordou, agitado. Fui lá, mas ele não conseguia dormir, e deitar no chão me incomodava: comecei a perceber que alguma coisa estava diferente. Um pouco de dor, uma cólica leve, contrações de treinamento (tive muitas, desde a metade da gravidez, e bem intensas) um pouco mais frequentes. Não me animei, a experiência da primeira gravidez me ensinou.

Ricardo ficou com ele, e me contou depois que, em dado momento, ele disse que queria “o papai, a mamãe, a irmãzinha”. É.

Só que às 6:30 da manhã eu acordei com uma contração dolorosa. Mudei de posição na cama, revirei, relaxei pra dormir de novo. Veio outra. Já não conseguia pensar em dormir. Fiquei quieta, esperando. Outra. Doía, aquela dor conhecida, que começa atrás e vem pra frente, como uma cólica menstrual bem forte, e endurece a barriga toda. Não era treinamento.

Comecei a monitorar as contrações. Estavam durando 40s, e embora ainda irregulares, oscilando nos 6 minutos de intervalo. Não demorou muito e ficaram mais longas, regulares e frequentes: 5 minutos. Achei que era hora de avisar à equipe de parto – obstetra, doula e enfermeira obstetra – que tinha gente querendo nascer em plena segunda-feira, em horário comercial.

A enfermeira pediu para avisar quando as contrações ficassem mais frequentes, para ela vir avaliar. O plano era ficar em casa, mais confortável, e só seguir para o hospital com 6 cm de dilatação.

Achei que teria algumas horas, até porque nada estava pronto. Nada. Já disse que a gente tinha certeza que ainda ia demorar? Eu não tinha mala de maternidade montada, nem a bebê. As roupinhas estavam todas limpas e guardadas, mas nada separado ou decidido. Não tinha enfeite de porta, lembrancinha. A própria doula tinha aconselhado deixar essas coisas pro final, no meu caso, pra ajudar a administrar a ansiedade. Funcionou, mas quando em meia hora as contrações apertaram, a enfermeira chegou e eu descobri que já estava com 4 cm de dilatação e bolsa rompida, não tinha cabeça que permitisse arrumar mala nos intervalos cada vez mais curtos.

Ricardo buscou o TENS pra ajudar com a dor, minha mãe chegou e ajudou a resolver a parte prática (eu ia ter camisola, a bebê ia ter roupinha), meus sogros vieram buscar Vinícius. Em mais uma hora a dilatação chegou a 6 cm e era hora de sair – eram 10h30 da manhã, só quatro horas desde que tinha sentido as primeiras contrações. Ela estava vindo, e era com tudo.

Passei as horas seguintes numa suíte de parto, um lugar que mais parece um quarto de hotel que um hospital. Luz baixa, música ambiente (pelo menos a playlist do parto eu tinha preparado na semana anterior), chuveiro, bola de pilates, massagem, colchão no chão. E ali as contrações foram ficando cada vez mais fortes, cada vez mais longas, cada vez mais frequentes. Ela foi mostrando que queria chegar, a frequência cardíaca não caía nem no auge da contração.

Nessa hora entendemos: quem vinha era Teresa. E veio.

Ela nasceu às 16h20 de uma segunda-feira. Abriu nossa semana com um choro forte que encheu a sala. Mamou logo que veio pro meu peito, como se já tivesse feito aquilo antes. Aninhou no colo e dormiu. Para trazer Teresa, eu busquei força onde pensei que já não tivesse, e encontrei. Fizemos a travessia juntas, e ela agora me olha com aquele jeito meio de bichinho, uma paz de quem veio ao mundo fazer o que precisa ser feito.

Bem-vinda, meu amor. Tem lugar pra você nas nossas vidas. Vem virar tudo de cabeça pra baixo de novo, que é assim que a gente gosta.

Teresa

Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

 

Fatos gravídicos

Segunda gravidez já no final (ou seja: pensamentos monotemáticos e necessidade de achar o que fazer), e pensando nas pessoas queridas que estão passando ou vão passar por isso pela primeira vez, resolvi reunir meu vasto conhecimento e apresentar alguns fatos sobre a gravidez que nem sempre vão te contar:

  1. Você não controla o que está acontecendo. Pode fazer tudo certo, exercício leve, alimentação, pré-natal, e ainda assim nada ser como previsto.
  2. Não adianta tomar banho de óleo de amêndoas. Não adianta passar hidratante da Mustela. Se você tiver tendência a estrias, elas vão aparecer. E proliferar.
  3. Diástase não é um negócio excepcional que aconteceu com a Sandy. Todo mundo tem diástase. É fisiológico. Os músculos do abdome se afastam pra dar espaço pra pança crescer. É normal inclusive que não voltem completamente. Só tem que tratar se permanecerem muito afastados até um tempo depois do parto.
  4. Tente não gastar muito tempo pensando nas restrições. Um dia você vai voltar a comer salada no quilo, pedir picanha mal passada e encher a cara. Logo passa.
  5. A pigmentação muda. Peitos escurecem, mas voltam ao normal (um dia). Algumas pessoas têm manchas no rosto, chamadas melasma. Pode aparecer uma linha escura na barriga, a linha nigra. Parte dos mistérios da vida é que na primeira gravidez a minha apareceu cedo e era bem marcada, e na segunda simplesmente não deu as caras.
  6. Colesterol e triglicérides ficam insanos durante a gravidez, e a maioria dos médicos nem pede esses exames. Leva um tempinho pra voltar aos índices normais.
  7. O volume de sangue aumenta cerca de 50%. Isso explica o calor ridículo que grávidas sentem. Ao mesmo tempo, o consumo de ferro é tão alto que existe o termo “anemia fisiológica” pra indicar que é normal a grávida estar anêmica nos exames de laboratório. A frequência cardíaca aumenta, a pressão cai.
  8. A primeira vez que você tem certeza que o bebê mexeu costuma ser mais estranha do que mágica. Tem. Algo. Mexendo. Dentro. Da sua. Barriga. E não são vermes. É impossível não lembrar daquela cena de Alien 3.
  9. O enjôo costuma durar só o primeiro trimestre, mas tem gente de muita sorte que enjoa a gravidez inteira.
  10. Antes de comemorar que não enjoou ou enjoou pouco, espere. A azia ainda te aguarda.
  11. A azia só melhora quando o bebê encaixa na pelve. O problema é que ele passa a apertar a bexiga e tudo mais que está abaixo.
  12. Grávidas ficam especialistas em laboratórios e exames. Se rolasse cartão fidelidade, categoria platinum seriam as grávidas e os velhinhos. Quem tem medo de agulha/sangue tem que preparar o coração.
  13. Inchaço acontece. Sapato nenhum cabe. O pé pode ficar pra sempre um tiquinho maior, aliás. Se você nunca usou uma meia de compressão, prepare-se: não é bonito.
  14. Depois das 37 semanas, quando o bebê já pode nascer, começa a valer o vórtice do espaço-tempo. Os dias não passam. Você não sabe se marca compromissos pra dali a duas semanas, ou se deixa de marcar qualquer coisa pra não correr risco. As pessoas que estavam grávidas junto de você vão parindo, e você, nada. Não tem mais quarto pra arrumar, roupa pra lavar, nem mala pra preparar. Você começa a fazer caminhadas aleatórias pelo bairro pra ver se ajuda.
  15. Você pode ter 2 ou 3cm de dilatação, perder tampão mucoso e ter contrações dolorosas (desde que irregulares e espaçadas) e ainda levar umas duas semanas pra entrar em trabalho de parto. Sua bolsa pode romper e você não entrar espontaneamente em trabalho de parto. Ou você pode estar calmamente dobrando lençóis bordados e precisar correr pro hospital. Sabe aquela história de não controlar nada? Vale aí também.
  16. Trabalho de parto dói. Dói muito. Mas a gente aguenta mais do que imaginava, até porque está inundada de um coquetel de hormônios malucos. E é absolutamente verdade a história de que, quando a criança nasce, aquilo tudo fica pra trás e nem parece tanto assim.
  17. Ponto de cesariana dói também. Limita movimentação. Subir e descer da cama depois da cesariana é um inferno por uma ou duas semanas. A primeira ida ao banheiro é tipo prova de vestibular. Só depois de um mês você está num estado mais próximo do normal.
  18. Até quando é absolutamente fisiológica e sem intercorrências a gravidez é uma loucura. Não sinta culpa se não achar tudo lindo. Bom humor salva nos piores momentos. Quando estiver andando pela rua parecendo uma mistura de pata choca com porta-aviões, pode rir.
  19. Não tenha medo de pedir ajuda. Nem pra família, nem pra quem fabricou a criança com você, nem para um profissional, dependendo do caso. Pare e deite quando sentir que precisa. Chore se der vontade (vai dar).
  20. De novo: a gravidez está, em boa parte, fora do seu controle. O bebê está fora do seu controle. A forma como seu corpo reage está fora do seu controle. Quanto mais cedo você abraçar a incerteza e o descontrole, menos sofrimento. É um bom exercício pro que vem depois.

O que há num nome?

Minha filha nasce em breve, e ainda não tem nome. Sim, temos algumas opções. Não, não vemos motivo para decidir de uma vez – se já esperamos até aqui, podemos esperar até olhar para ela.

Com Vinícius, a decisão do nome foi simples: não conseguíamos chegar a acordo nenhum, então quando finalmente um nome agradou a ambos, paramos de procurar. Problema resolvido.

Dessa vez não foi tão fácil. Começamos com pelo menos quatro possibilidades de nomes bonitos, clássicos, e fomos vivendo com eles ao longo dos meses. Desistimos de um, depois de outro.

Os dois nomes que hoje pairam sobre ela são bonitos e nos agradam. Um é mais popular, o outro é mais antigo. Um é mais delicado, o outro, mais forte. Por isso queremos olhar para nossa filha: se há opções, por que não permitir que ela mesma participe do processo? Faz parte de todo o ritmo mais lento da segunda gravidez.

Há poucas décadas, não era possível nem definir o sexo da criança antes de nascer. Hoje, a ideia é que o mais cedo possível se estabeleçam todas as certezas – do chá de bebê ao enfeite de maternidade, tudo é personalizado.

As pessoas estão tão habituadas com isso, que a informação de que adiamos a escolha para depois do parto gera reações divertidíssimas. Tem gente que fica indignada. Tem quem nos acuse de já ter um nome, sim, e não querer contar. Quase todo mundo opina – seja escolhendo um dos dois como preferido, seja sugerindo algum outro pra tentar ajudar a resolver a dúvida.

Falta pouco, agora. Não tem por que a gente se apressar. O cheirinho de recém-nascida vai ser igualmente bom, tenha ela o nome que tiver.